06 setembro, 2006

Publicado na revista Germina

Publiquei na revista online "Germina" de agosto de 2006 (www.germinaliteratura.com.br/literaturamff_agosto2006.htm) o texto abaixo, com algumas idéias ainda em elaboração. O texto parte das perguntas abaixo, que também são pressupostos, e segue com esboços de respostas:::

- por que o poeta não tem lugar na sociedade atual, a não ser como coadjuvante anônimo?

- por que os poemas perderam a capacidade de estabelecer qualquer tipo de comunicação com essa sociedade?

- quem teria tomado esse lugar, e por que os poetas inventaram um “outro lugar”, que na verdade é “lugar nenhum”?

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Poesia não é diálogo, é apresentação.

Filosofia é diálogo, romance é diálogo.

Na poesia interessa o olhar primordial para as coisas, como o olhar da criança que olha com o espanto da primeira vez.

Poetas que dizem dialogar com a tradição (a “influência”) já ultrapassaram a idade do espanto, e a partir daí perderam a capacidade de “apresentar”.

Poesia é a apresentação do olhar primordial usando a linguagem no limite da escritura, pois ao chegar à escritura a linguagem se fechou.

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O homem busca colocar ordem no mundo. Como animal social busca adaptar a natureza ao seu jeito, e tem medo da natureza quando ela não se ajusta. Tudo o que faz tem a finalidade de organizar, ou de tentar compreender. A poesia é uma dessas ferramentas de compreensão.

Poetas que dizem que a poesia foge a essa regra, que dizem que a poesia escapa a essa função, mistificam e fazem com que ela pareça mais [ou menos] do que é.

Não aceitar o poema no que ele tem de humano e terreno é um erro da modernidade. O poema nada tem de elevado, nada de supremo, nada de supra-sensível.

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O poeta não é um marginal, mesmo que os românticos gostem de assumir essa imagem, sugerindo que seja muito elegante. Tornou-se apenas um esquizofrênico, que pensa que é melhor do que os outros homens.

Como um esquizofrênico, imagina sinceramente que é melhor do que os outros. Essa doença começa com os românticos, e a partir daí a imagem de maldito ficou pop.

O poeta de hoje não tem lugar na sociedade dos homens porque essa sociedade o reconhece como um fraco intelectual, um incapaz, cujo maior talento é publicar livros e revistas para ele mesmo e seu pequeno grupo.

Menos do que um bufão, menos do que um mendigo, representa seu papel num teatro obscuro dentro de uma rua sem saída. Representando para outros atores, a cada ato esteriliza ainda mais suas poucas forças.

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O poeta não fala nem a linguagem dos homens nem a dos anjos. Quando usa as palavras do homem, fala sem amor.

A poesia não é para ler em voz alta em saraus e festas literárias. Isso é enganação. É mais fácil enganar os ouvidos do que os olhos. A voz interior é mais inteligente.

Isso explica o sucesso dos 'poetas do rock', bem como a tentativa atual dos “recitais”.

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Porém a poesia não perdeu seu lugar na sociedade dos homens.
O problema é que está sem representantes.

25 julho, 2006

Poeta, o “bufão de costume”

Os poemas têm que ter alguma inserção no mundo, precisam participar do movimento da nossa existência, e não podem ser esses elementos decorativos que têm sido esses poemas ridículos da nossa triste atualidade.

Ninguém que eu conheço, gente que vive a vida como ela é, lê essas bobagens anêmicas que têm sido publicadas em revistas como Sibila, Inimigo Rumor, Oroboro, também a Babel e tantas outras.

Concordo inteiramente com as colocações do poeta Ronald Augusto, ao criticar os poemas de Tarso de Melo (e por extensão grande parte da poesia atual no Brasil), ao considerar tal escrita o “círculo vicioso de auto-referências e auto-reconhecimentos, cujo resultado é essa sorte de submissão a um acordo tácito em torno do virtuosismo técnico, da erudição intertextual perdulária e sem razão de ser e da eficiência diluída em esnobismo.”

Ronald fala também sobre o papel do poeta, que “é, ou deveria ser, o transgressor incestuoso do idioma materno, [mas] ainda ocupa, apesar ou mesmo devido a sua excelente formação, o lugar do bufão de costume.”

Confusão de nomes

O poema é a expressão “física” da poesia. Outras manifestações, tais como músicas, filmes, pinturas, etc., muitas vezes são consideradas “poéticas”.

Mas o lugar da poesia é o poema. O lugar onde o pensamento pode dançar na melodia das palavras.

Dizer que a poesia está em todo lugar é uma confusão banal, pois os que dizem isso confundem “poesia” com “beleza”, e esses são conceitos diferentes.

09 julho, 2006

Motivação e início

Há quase dois anos, no início de 2004, praticamente desanimei da poesia e dos poemas. Não foi um abandono, mas um desânimo. Meu amigo Ademir Demarchi (sem saber desse desânimo) denominou o momento atual como "tédio geral", e provavelmente esse tédio (junto aos motivos pessoais) foi a influência forte.

No entanto as perguntas que motivam a escrita dos poemas e a reflexão sobre a poesia, e também sobre o pensamento (e não a razão crítica) que vive dentro da poesia como uma forma especial (eu penso que é superior) do pensar, essas perguntas continuam persistindo.

O espaço deste blog surgiu como ambiente para que algumas respostas, nunca conclusivas, possam ser colocadas, analisadas, rebatidas e reescritas, sob o risco constante e motivador do erro e da imprecisão.


Além disso, outras questões, concretas, precisam ser colocadas. Por que a poesia não tem espaço no mundo atual? Qual a função dos poemas no mundo de hoje? Ou melhor, existe alguma função para a poesia, para além daquele ridículo mote de que a “poesia não tem função”? Por que os poetas se recolheram em guetos e clubes e se amesquinharam? E por que as pessoas mais inteligentes não se dedicam mais a ler, e muito menos escrever, poemas?