06 setembro, 2006

Publicado na revista Germina

Publiquei na revista online "Germina" de agosto de 2006 (www.germinaliteratura.com.br/literaturamff_agosto2006.htm) o texto abaixo, com algumas idéias ainda em elaboração. O texto parte das perguntas abaixo, que também são pressupostos, e segue com esboços de respostas:::

- por que o poeta não tem lugar na sociedade atual, a não ser como coadjuvante anônimo?

- por que os poemas perderam a capacidade de estabelecer qualquer tipo de comunicação com essa sociedade?

- quem teria tomado esse lugar, e por que os poetas inventaram um “outro lugar”, que na verdade é “lugar nenhum”?

***************************************

Poesia não é diálogo, é apresentação.

Filosofia é diálogo, romance é diálogo.

Na poesia interessa o olhar primordial para as coisas, como o olhar da criança que olha com o espanto da primeira vez.

Poetas que dizem dialogar com a tradição (a “influência”) já ultrapassaram a idade do espanto, e a partir daí perderam a capacidade de “apresentar”.

Poesia é a apresentação do olhar primordial usando a linguagem no limite da escritura, pois ao chegar à escritura a linguagem se fechou.

***************************************

O homem busca colocar ordem no mundo. Como animal social busca adaptar a natureza ao seu jeito, e tem medo da natureza quando ela não se ajusta. Tudo o que faz tem a finalidade de organizar, ou de tentar compreender. A poesia é uma dessas ferramentas de compreensão.

Poetas que dizem que a poesia foge a essa regra, que dizem que a poesia escapa a essa função, mistificam e fazem com que ela pareça mais [ou menos] do que é.

Não aceitar o poema no que ele tem de humano e terreno é um erro da modernidade. O poema nada tem de elevado, nada de supremo, nada de supra-sensível.

***************************************

O poeta não é um marginal, mesmo que os românticos gostem de assumir essa imagem, sugerindo que seja muito elegante. Tornou-se apenas um esquizofrênico, que pensa que é melhor do que os outros homens.

Como um esquizofrênico, imagina sinceramente que é melhor do que os outros. Essa doença começa com os românticos, e a partir daí a imagem de maldito ficou pop.

O poeta de hoje não tem lugar na sociedade dos homens porque essa sociedade o reconhece como um fraco intelectual, um incapaz, cujo maior talento é publicar livros e revistas para ele mesmo e seu pequeno grupo.

Menos do que um bufão, menos do que um mendigo, representa seu papel num teatro obscuro dentro de uma rua sem saída. Representando para outros atores, a cada ato esteriliza ainda mais suas poucas forças.

***************************************

O poeta não fala nem a linguagem dos homens nem a dos anjos. Quando usa as palavras do homem, fala sem amor.

A poesia não é para ler em voz alta em saraus e festas literárias. Isso é enganação. É mais fácil enganar os ouvidos do que os olhos. A voz interior é mais inteligente.

Isso explica o sucesso dos 'poetas do rock', bem como a tentativa atual dos “recitais”.

***************************************

Porém a poesia não perdeu seu lugar na sociedade dos homens.
O problema é que está sem representantes.

2 comentários:

Ênio Padilha disse...

Não sou (nunca fui) poeta no sentido formal do termo. Mas já fui, no passado, mais envolvido com o tema. E já tive a veleidade de ter um conceito sobre o assunto.

Isso mesmo. Eu tinha uma definição de poesia e de poeta.

Mas essas definições se esvaziaram e perderam... Agora esse texto do Mauro mostra que essa perda de concepção talvez não tenha sido só minha. Muita gente se perdeu nesse caminho.
A poesia perdeu seus representantes.
Os que eram poetas estão fazendo outras coisas... Mas ainda acham que estão fazendo poesia.

Socorro disse...

Mauro,
Hoje estive lendo algumas de suas poesias e aproveitei para parabenizá-lo, pelo dia Nacional da Poesia. Sua contribuição para o acerco da poesia nacional!
Abraços